As operações dos EUA para evitar o triunfo de Petro na Colômbia

Com aproximação das eleições na Colômbia, diplomatas e militares dos EUA, temendo um fechamento de suas bases no país, trabalham ativamente contra Petro. Por Jorge Elbaum | CLAE – Tradução de Pedro Marin para a Revista Opera

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O comandante-geral das Forças Armadas da Colômbia, general Luis Navarro, ao lado da general dos EUA Laura Richardson, durante visita ao Comando Sul. 28 de março de 2022. (Foto: Juan Chiari / U.S. Southern Command)

No próximo domingo, 29 de maio, serão realizadas as eleições presidenciais na Colômbia, o país latino-americano mais identificado com as posições políticas de Washington nas últimas décadas. Caso nenhum dos candidatos ultrapasse 50% dos votos, será realizado um segundo turno no dia 19 de junho, com a participação dos dois candidatos mais votados. Todas as pesquisas preveem a vitória do candidato do Pacto Histórico, o atual senador Gustavo Petro, superando o líder da coalizão de direita, Equipo por Colombia, Federico Fico Gutiérrez.

Gustavo Petro integrou, ainda jovem, as fileiras do Movimento 19 de Abril (M-19), organização político-militar que foi dissolvida na década de 1980 para se tornar um partido político. Entre 2012 e 2015 foi prefeito de Bogotá e se revelou o principal expoente da oposição a Álvaro Uribe, líder de direita colombiano, repetidamente acusado de associação ao tráfico de drogas. Nas últimas eleições presidenciais, em 2018, Petro chegou a disputar o segundo turno contra o atual presidente, Iván Duque.

Nesta disputa, o senador apresenta como companheira de chapa a militante afro-colombiana Francia Márquez Mina, ligada aos movimentos feministas, ao ativismo ecológico-ambiental e à luta contra o racismo.

Nas eleições primárias de março, o ex-prefeito de Bogotá conquistou o primeiro lugar entre as preferências de setores progressistas, enquanto Francia Márquez – que sobreviveu a um atentado contra sua vida em 2019 – foi a terceira candidata mais votada. O Pacto Histórico obteve percentuais de votação mais expressivos nos departamentos onde as revoltas sociais de 2020 e 2021 foram mais evidentes.

A possibilidade do primeiro triunfo da esquerda no país da América Latina e Caribe que mais tem afinidade com as políticas de Washington tem motivado vários alertas das agências dedicadas ao “Hemisfério Ocidental”, etiqueta com a qual o Departamento de Estado localiza o continente em que está inserido. Logo após as eleições primárias e parlamentares de 13 de março, o Comando Sul – que coordena as atividades militares da Guatemala ao sul da região – promoveu uma reunião ​​com o Comandante Geral das Forças Militares Colombianas, o general Luis Navarro.

No referido encontro, conjecturaram-se os cenários de uma potencial vitória do Petro nas eleições de maio. Navarro foi recebido pela general do Exército dos EUA Laura Richardson, que solicitou informações sobre o possível desmantelamento das sete bases militares que os Estados Unidos mantêm em território colombiano no caso do candidato do Pacto Histórico conquistar a presidência.

O depoimento prestado por Navarro em 28 de março a Richardson afirma que tanto a maioria dos congressistas quanto as próprias forças militares da Colômbia se oporiam a tal decisão. Ao final da reunião, o Comando Sul (SOUTHCOM) divulgou um comunicado à imprensa no qual a Colômbia é classificada como “parceira de segurança incondicional” de Washington. Algumas semanas depois, de maneira consistente com o depoimento de Navarro, o chefe do Exército colombiano, Eduardo Zapateiro Altamiranda, acometeu contra o candidato Gustavo Petro pelo Twitter, depois de Petro questionar a ação repressiva do Exército no massacre de Putumayo, no qual onze pessoas foram mortas, incluindo um menino de onze anos, Brayan Pama. Todos eles foram expostos como membros dissidentes das FARC, mas as investigações mostram que seus corpos foram manipulados para impossibilitar investigações judiciais.

O senador Petro aludiu – diante desse crime – à continuidade dos chamados “falsos positivos”, mecanismo utilizado pelas Forças Armadas e pelos paramilitares para exibir sucessos contra a guerrilha e aterrorizar os camponeses para forçá-los a abandonar suas terras ancestrais e permitir a expansão da mineração e do extrativismo agroindustrial.

Até 24 de abril de 2022 – segundo a organização de direitos humanos responsável pelo levantamento de assassinatos por motivos políticos e sociais – houve 36 massacres, com um total de 133 vítimas. Segundo as investigações de diversos organismos internacionais, as estruturas paramilitares que controlam a produção de cocaína, especificamente nos territórios que as guerrilhas desmobilizadas depois dos acordos de paz de 2016 deixaram de controlar, são as responsáveis pelas execuções.

Os russos estão chegando

Segundo fontes diplomáticas sediadas em Bogotá, um dos funcionários mais hiperativos é o atual embaixador de Washington naquela cidade, Philip Goldberg, que tem em seu histórico o fato de ter sido expulso da Bolívia em setembro de 2018 por promover iniciativas secessionistas nas regiões de Santa Cruz, Beni, Pando, Tarija e Chuquisaca. Goldberg – transferido para Bogotá em 19 de setembro de 2019, dois meses antes do golpe contra Evo Morales – fez um alerta escandaloso sobre a possibilidade de uma “interferência de russos, venezuelanos ou cubanos nas eleições”. Tais declarações foram interpretadas por grande parte dos analistas colombianos como o prólogo de uma futura deslegitimação do processo eleitoral, no caso de Petro alcançar a presidência: uma forma de preparar o terreno, tal como feito na Bolívia em novembro de 2019.

O apoio intervencionista e aberto da Embaixada dos Estados Unidos aos candidatos da direita ficou mais explícito durante as deliberações da Assembleia Geral de membros do Conselho de Empresas Americanas (CEA), que comemorou o 60º aniversário da criação dessa instituição e o 200º aniversário das relações bilaterais entre a Colômbia e os Estados Unidos. Goldberg destacou – junto com Iván Duque – que os dois governos estão trabalhando para evitar qualquer interferência estrangeira.

Em 22 de abril, o chefe do Exército esqueceu-se da esperada neutralidade de um militar da ativa e aderiu à campanha contra o candidato do Pacto Histórico. Em resposta, os parlamentares ligados ao candidato que venceu as primárias lembraram os militares de sua responsabilidade pelos cinquenta manifestantes assassinados durante as mobilizações de 2019 e 2020 em Cali, onde o Exército teve responsabilidade prioritária nas operações repressivas.

Paralelamente, o empresário uribista Fabio Andrade, sediado na Flórida, organizou uma caravana em Miami no dia 15 de maio, na qual se pronunciou contra uma suposta futura fraude, dado que “as instituições estão tomadas: todo o dinheiro do narcotráfico é contra a manutenção da democracia na Colômbia”. A mobilização de uma centena de pessoas recebeu as saudações da congressista dos EUA María Elvira Salazar, integrante da bancada republicana na Câmara, que disse frente ao subcomitê de Relações Exteriores que “Gustavo Petro é um ladrão, é um socialista, é um marxista, é um terrorista e está encabeçando as pesquisas para presidente da Colômbia”.

Negócios, tocas e política

Petro é o primeiro candidato da esquerda que chegaria ao segundo turno. Aqueles que tentaram alcançar essa instância no passado foram mortos. Entre eles Jaime Pardo Leal e Bernardo Jaramillo Ossa, candidatos da União Patriótica, o ex-membro do Movimento 19 de Abril, Carlos Pizarro, e o líder progressista liberal Luis Carlos Galán. O candidato do Pacto denunciou há duas semanas que havia um plano para assassiná-lo durante uma visita planejada à cidade de Pereira, controlada pela organização paramilitar La Cordillera, associada aos cartéis de narcotráfico vinculados às gangues mexicanas que transportam cocaína e heroína aos Estados Unidos.

A economia da droga representou, na última década, entre 2 e 3% do PIB colombiano. Em relação às exportações, soma 5 pontos percentuais ao montante. O enorme capital envolvido nessas transações ilegais é aplicado na concentração da propriedade da terra e no financiamento de campanhas eleitorais. Gera, além disso, uma sustentada informalidade laboral, a institucionalização da lavagem de dinheiro, o contrabando de armas, a privatização da segurança mediante a formação de bandos paramilitares – que contam com regimentos inteiros de sicários – em completa conivência com as forças armadas e de segurança estatais.

Dias antes das eleições primárias, em 1º de março de 2021, o Departamento de Estado aumentou seus subsídios para Bogotá com o objetivo de limitar o tráfico de drogas. Os regulamentos aprovados devem ser executados pelo Controle Internacional de Entorpecentes e Aplicação da Lei (INCLE), derivado da Iniciativa Andina Contra as Drogas, que começou no início do século XXI. No início de junho de 2021, o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) publicou os resultados iniciais do monitoramento de cultivos na Colômbia, realizado durante 2020 por meio de levantamentos por satélite (que incluem a extensão e densidade dos cultivos) e observações de campo.

O resultado é bastante eloquente: as áreas ocupadas por plantações são maiores do que aquelas que existiam quando o Plano Colômbia começou em 1999, e a produtividade desses cultivos dobrou nas últimas duas décadas. Os programas promovidos conjuntamente por Washington e os governos colombianos promoveram – sob o pretexto de limitar o cultivo de coca – as pulverizações aéreas. Esses procedimentos motivaram, por sua vez, o abandono dos campos comunitários pelos camponeses atingidos pelos herbicidas. O resultado foi a concentração de terras – após a expulsão de seus habitantes ancestrais – e a redução da biodiversidade pela expansão da monocultura.

Enquanto nos Estados Unidos são utilizadas políticas brandas para lidar com a demanda por drogas (tratamentos de redução de danos e formas de regulação de substâncias), na América Latina e no Caribe, exigem a criminalização como núcleo central da redução da oferta. A combinação de ambas as medidas – punitividade e empoderamento de setores cúmplices do narcotráfico, associados aos latifundiários – explicam tanto o aumento do narcotráfico como a parceria entre as forças armadas, a embaixada e os cartéis.

Por sua vez, grande parte do capital das drogas se acumula em abrigos fiscais. Mas outra parte rodeia os empresários que pululam embaixadas para somar-se ao coro daqueles que buscam evitar os triunfos dos setores populares, de esquerda ou progressistas. Esta é a razão pela qual na Colômbia há cada vez mais plantações, mais produção de cocaína e mais fluxos de moeda que podem ser usados ​​para impedir a democratização e a regularização pública da terra a serviço dos interesses sociais.

O escritor Rafael Moreno-Durán comentou em uma entrevista que, na Colômbia, “a política é tão corrupta que corrompeu até o narcotráfico”. É compreensível que em Washington estejam aterrorizados com a vitória de Petro.