EUA: um informe federal revela o histórico aumento da organização em sindicatos

Pandemia e crise levam a nova alta da organização sindical nos EUA: sindicatos têm hoje o índice de aprovação mais alto desde 1965. Por Madeline Patenaude | Liberation – Tradução de Pedro Marin para a Revista Opera

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"Nós não somos robôs". Trabalhadores da Amazon durante manifestação na Grã Bretanha. (Foto: War on Want)

Em meio a uma onda de esforços de sindicalização nos Estados Unidos, a Junta Nacional de Relações Laborais dos EUA (NLRB em inglês) informou um aumento de 57% na quantidade de solicitações de representação sindical apresentadas na primeira metade do ano fiscal de 2022 (do 1 de outubro a 31 de março). Ao mesmo tempo, as queixas por práticas laborais injustas aumentaram em 14%. Os trabalhadores de hoje estão se organizando e solicitando mais eleições sindicais do que em qualquer outro momento nos últimos dez anos. De fato, uma pesquisa recente da Gallup mostra que os sindicatos nos Estados Unidos têm hoje o índice de aprovação mais alto desde 1965, com 68% de aprovação.

Faz muito sentido que o país esteja experimentando um aumento da popularidade e da organização sindical. Os trabalhadores que foram etiquetados durante a pandemia como “heróis essenciais” rapidamente se deram conta de que o título não traria nenhum benefício tangível. Junto à “grande renúncia” (a tendência de trabalhadores a demitirem-se em massa após o pico da pandemia, observada nos EUA a partir de 2021) que vimos como resultado destas crises, os trabalhadores hoje têm uma influência adicional para exigir mais de seus patrões.

Sindicatos em ascensão

A primeira campanha sindical exitosa na gigante varejista Amazon conduziu a uma vitória histórica no armazém JFK8 em Staten Island, Nova Iorque. A alta rotatividade, as terríveis condições de segurança e o excesso de trabalho foram algumas das principais motivações por trás dessa campanha de sindicalização.

A Amazon é conhecida pelo horrendo tratamento dispensado a seus trabalhadores, o que os levou ao contra-ataque. Os trabalhadores de armazéns da Amazon experimentam lesões nos seus locais de trabalho a uma taxa de ao menos o dobro do que os trabalhadores de armazéns no geral. Das 38.344 lesões registradas no ano passado, 89% delas foram tão graves que os trabalhadores não puderam continuar realizando seu trabalho. Os trabalhadores da Amazon perseveram apesar de uma feroz campanha anti-sindical, na qual a Amazon investiu milhões de dólares.

Os trabalhadores da Amazon de Bessemer, no estado do Alabama, ainda não ganharam suas eleições sindicais. Depois de verem-se obrigados a celebrar uma segunda eleição em função da má conduta corporativa durante a primeira votação, a Amazon seguiu participando na repressão sindical, o que deu lugar a uma grande quantidade de queixas por práticas laborais injustas.

Por sua vez, os trabalhadores da rede de cafés Starbucks de todo o país também se uniram à luta, com campanhas sindicais em Colorado, Massachusetts, Pensilvânia, Ohio, Nova Iorque e muitos outros estados. No último ano, foram apresentadas mais de 200 petições para eleições sindicais, com ao menos 50 vitórias, e a maioria das eleições ainda não foram realizadas. Estes trabalhadores enfrentam as campanhas anti-sindicais enganosas da gigantesca rede, que incluem assédio moral, intimidação, eliminação de panfletos sindicais dos locais de trabalho, reuniões de audiência cativa, demissões em represália e chegada de novos funcionários não-organizados antes das eleições. Apesar dos esforços da empresa para impedir a onda de sindicalização, as táticas do medo só aumentaram a determinação dos trabalhadores.

Contexto histórico

O panorama atual do movimento laboral tem algumas semelhanças com os levantes de trabalhadores que vemos ao longo da história. A última pandemia global devastadora, a “gripe espanhola”, dizimou a população, matando aproximadamente 50 milhões de pessoas em todo o mundo. Nos Estados Unidos, o número de mortos foi algo ao redor de 675 mil. Em 1919, quando a pandemia estava dando trégua, os Estados Unidos testemunharam a maior mobilização dos trabalhadores até então. Quatro milhões de trabalhadores participaram em uma onda de greves que ocorreram ao longo do ano, um assombroso ⅕ da força laboral do país naquele momento. Os trabalhadores estavam em greve, lutando por semanas de trabalho mais curtas e aumentos salariais para fazer frente ao custo de vida.

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Uma década depois, após o início da Grande Depressão, em outubro de 1929, a classe trabalhadora suportou a maior parte dos sofrimentos e dores associadas a esse período. A esta altura, o movimento operário era muito mais fraco do que havia sido em 1919, mas não passou muito tempo para que os trabalhadores se dessem conta de que tinham de organizar-se para não serem completamente esmagados. Ao longo deste período, milhões de trabalhadores que nunca antes haviam participado de sindicatos começaram a se organizar.

A organização dos trabalhadores e a histórica onda grevista dos princípios da década de 1930 levaram a importantes reformas que ainda se mantêm de pé. Devido ao ressurgimento militante do movimento operário, os trabalhadores ganharam seu primeiro salário mínimo, o sistema de seguridade social, a compensação federal por desemprego e um programa federal de emprego. O governo federal dos EUA também aprovou a Lei Nacional de Relações Laborais, que outorgou aos trabalhadores do setor privado o direito à formação de sindicatos e a negociações coletivas com seus empregadores. A classe dominante sentiu uma crise real dentro do sistema e fez estas concessões para estabilizar-se frente ao desejo cada vez mais popular por um novo tipo de sociedade.

A história nos mostrou a grande força que os trabalhadores possuem quando estão organizados. O recente aumento de pedidos de sindicalização na Junta Nacional de Relações Laborais dos EUA demonstra um maior apetite por parte dos trabalhadores por contra atacar, em meio a condições de trabalho e salários deficientes.