Teologia vermelha: sobre a tradição cristã comunista

Para Roland Boer, cristianismo e comunismo não compartilham só de uma visão crítica sobre o mundo, mas também uma história comum de luta revolucionária. Via Transfigurations – Tradução de Pedro Marin para a Revista Opera

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(Foto: Jacques Lebleu)

Comparações entre o comunismo e o cristianismo não são uma novidade, e vários pensadores marxistas fizeram essas conexões ao longo da história. Infelizmente, muitas das tentativas de estabelecer pontes entre essas tradições acabam por ser idealistas, descolando-se do materialismo-histórico e inevitavelmente centrando-se em algumas palavras atribuídas a Jesus de Nazaré ou em relatos sobre a igreja primitiva. A maior parte destas comparações, embora bem intencionadas, terminam em vagos apelos pela justiça social ou na prática da ajuda mútua – projetos de caridade que têm muito mais em comum com o Exército da Salvação do que com o marxismo-leninismo. É aqui que a obra indispensável de Roland Boer, Red Theology: On the Christian Communist Tradition (“Teologia vermelha: sobre a tradição cristã comunista” em tradução livre), deve ser tomada em conta: uma pesquisa muito bem feita, que argumenta não só que o cristianismo e o marxismo oferecem perspectivas críticas similares do mundo, mas também que ambas as tradições têm uma história compartilhada de luta revolucionária, cada uma delas com seu exemplos gloriosos de viradas de mesa.

O livro descreve uma história convincente do que Boer chama de “cristianismo comunista”. Com base nas análises de Kautsky e Rosa Luxemburgo, o autor levanta um ponto crucial: enquanto o que começou com a igreja primitiva – um coletivo de crentes que “compartilhavam todas as coisas” – poderia ser reivindicado pela tradição comunista, não se pode esquecer que essa experiência se tratou de comunismo de consumo, não de produção, um fenômeno que não emergiria de fato até a URSS. Esse “comunismo de consumo”, que foi modelado primeiro pela tradição mosaica, e mais tarde dentro das comunas judaicas essênias, atraiu em grande parte os pobres, os escravos e os desempregados, mas também incluía membros mais ricos. Divisões étnicas e de classe eram suavizadas até certo ponto através de partilha das posses, da esmola e da “ajuda mútua”, muitas vezes no contexto de um ódio compartilhado em relação aos ricos. Um elemento central disso, é claro, era a expectativa por uma ordem social radicalmente diferente onde os primeiros seriam os últimos e os últimos os primeiros. Boer analisa o desenvolvimento dessas comunidades no contexto de um aumento na tensão social dentro da Judéia, confinada à economia política de subsistência-sobrevivência agrícola e colonização romana.  Seu argumento fundamental aqui é que o sucesso da igreja primitiva estava ligado à sua ressonância entre as classes exploradas da Judéia, com seu “comunismo de consumo” sustentado por meio de uma atitude militante de venda das posses para sustentar as comunidades de fé. Essa ameaça vermelha aparece repetidamente na tradição do cristianismo heterodoxo, caminhando lentamente para um comunismo de produção com o advento do marxismo-leninismo – que Boer vê como o cumprimento das aspirações comunistas primitivas da igreja primitiva. No entanto, Boer também lembra-se de ser cauteloso aqui, notando que a análise de Luxemburgo, que identificava a tendência do cristianismo comunista à “ajuda mútua” e os limites do comunismo de consumo demonstrados claramente em sua degeneração na caridade ou na esmola. Além disso, como Luxemburgo alegou, a maior fraqueza de qualquer comunismo de consumo (ou comuna anarquista) é a facilidade com que ela pode ser acomodada nas estruturas de exploração ou até mesmo gerar novas estruturas do tipo. Para qualquer um que tente estabelecer pontes entre comunismo e fé, é crucial compreender estes pontos.

Sendo ele um teólogo Reformado, Boer tem uma visão positiva em relação à Reforma Protestante e às figuras de Calvino e Lutero. Ele baseia essa visão no argumento de Engels de que a tradução de Lutero da Bíblia, do latim para o alemão, foi a faísca para a aparição de Thomas Müntzer e as revoltas camponesas contra os senhores feudais na Alemanha. Embora o protestantismo não tenha resolvido de forma alguma o aparato religioso opressivo, Boer vê nas inovações de Lutero uma honesta “constatação do problema” da tirania do poder eclesiástico. Ele também reconhece a contribuição de Lutero para o reavivamento da tradição do Novo Testamento do “sacerdócio de todos os crentes”, transformando “padres em leigos e leigos em sacerdotes”. Além disso, ele enaltece o assalto de Lutero contra a cegueira da devoção eclesial, a substituindo pelo fogo da convicção. A inovação de Lutero (que Lutero também combateu!) é evidenciada pelo fruto da Reforma Radical do século 16, que levou à insurreição hussita, ao movimento anabatista e às guerras camponesas alemãs. Esses movimentos – fundamentados na heterodoxia cristã apocalíptica – abalaram a cristandade feudal. Como Boer argumenta, antes do socialismo científico, o horizonte da ideologia alemã era completamente teológico. Somente após o advento da Reforma Protestante este horizonte foi aberto aos trabalhadores, camponeses e mulheres, permitindo sua real participação neste reino de luta ideológica por meio das interpretações heréticas das escrituras. Essas leituras que faziam estavam inquestionavelmente enraizadas nas suas experiência de opressão de classe, seus desejos por uma redistribuição das riquezas, e seu sonho de uma reorganização radical da sociedade. Esse sonho foi buscado de várias maneiras criativas durante a reforma radical, muitas vezes retornando ao comunismo de consumo que surgiu pela primeira vez na igreja primitiva. O principal avanço durante a turbulência do século 16 foi que esses experimentos foram conquistados por meio da luta armada dos camponeses e resultaram em grandes vitórias militares contra a classe dominante, por vezes chegando à tomada de cidades inteiras.

Em sua avaliação do comunismo cristão durante a Revolução de Outubro, Boer rejeita a leitura liberal padrão: a de que militantes bolcheviques ateus tomaram o poder com o objetivo fundamental de destruir a religião. Embora os bolcheviques tenham certamente suprimido e lutado contra os elementos reacionários da igreja, Boer está mais interessado na forma como os bolcheviques acharam uma causa comum com o campesinato, cuja visão de mundo era inteiramente teológica e cuja subsistência econômica era feudal. O autor destaca a breve história do socialismo camponês russo, uma tradição que tinha suas origens em Tolstói durante o czarismo. O escritor foi o primeiro a atacar o conluio da igreja ortodoxa com a classe dominante feudal contra o campesinato, e de Tolstói veio o lema “a terra é de Deus”: a primeira demanda real por reforma agrária sob a Rússia czarista. Na prática, o socialismo camponês foi uma experiência do comunismo cristão; firmemente comprometido com o coletivismo e disposto a respeitar a boa autoridade do governo no espírito de Romanos 13. Apesar de suas motivações serem em grande parte idealistas, o socialismo camponês apresentou um modo de vida comunista alternativo, que funcionou na prática como uma crítica real dos principados e poderes, até o ponto da ruptura revolucionária. Ao ansiar pela futura vinda do Reino, o socialismo camponês russo baseou-se nos exemplos da igreja primitiva. Ele constituiu uma das primeiras formas de vida comunal no Império Russo, um experimento que mais tarde evoluiu para o projeto bolchevique de agricultura coletiva.

Uma das inovações dos bolcheviques na luta por unir a classe trabalhadora industrial às lutas do campesinato pode ser vista no nascimento de um grupo chamado “Construtores de Deus”, um agrupamento de marxistas cujo objetivo era multiplicar a potência emocional do marxismo baseando-se no mito cristão. Embora os Construtores de Deus invocassem os profetas hebreus em suas proclamações revolucionárias, eles também compreendiam as limitações de tais invocações. Já que o impulso profético só é possível no contexto de uma sociedade reacionária, os profetas ficam assim “tropeçando” como críticos, incapazes de propor um programa verdadeiramente revolucionário para a sociedade. Com uma leitura única da Bíblia, o grupo reivindicava a Revolução de Outubro como uma vitória espiritual mundial histórica, comparável ao Pentecostes e ao derramamento do Espírito Santo. Seu inimigo espiritual era o gnosticismo, visto como uma corrupção anti-materialista do cristianismo. O grupo também tinha grande admiração pelo apóstolo Paulo e sua capacidade de remodelar a crucificação e a ressurreição de Cristo em um novo mito, realizando-as assim como categorias políticas do sujeito revolucionário, um sujeito salvo pela justificação através apenas da convicção, negando as reivindicações de salvação dos ricos e poderosos do mundo.

Como professor de Filosofia na Universidade Renmin da China, Boer dedica uma parte significativa de seu livro à história da sinificação do cristianismo, tendo interesse particularmente pelos experimentos revolucionários que ocorreram nesse processo. Um desses movimentos – a Rebelião Taiping, que formou a base das revoluções antifeudais e antiimperialistas posteriores na China –, chama sua atenção em particular.

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Essa rebelião foi desencadeada por Hong Xiuquan, inspirado por sua interpretação de uma Bíblia que recebeu de um missionário. Furioso com os males do sistema imperial, ele foi atraído pela ideia do Reino de Deus como meio de libertação dos oprimidos; uma mensagem que ressoou entre um conjunto de camponeses cada vez mais militantes, muitos dos quais já estavam adotando o banditismo contra o imperador como meio de sobrevivência. À medida que o movimento crescia, a Bíblia tornou-se sua inspiração central (significativamente editada para atender aos seus propósitos), oferecendo as diretrizes básicas para uma reorganização radical da sociedade que incluía a reforma agrária, a igualdade de gênero e a partilha de todos os bens. Fundamental na Rebelião Taiping foi a interpretação heterodoxa das escrituras, centrada em um monoteísmo radical, na qual o reino vindouro de Deus tornou-se uma régua para a sociedade de fato existente; um movimento radical que soou o primeiro sinal para a morte do sistema imperial. Embora Mao Tsé-Tung tenha afirmado que a Rebelião Taiping não foi nativa (vendo-a como uma incursão ocidental), ele também reconheceu que o movimento iniciado por Hong Xiuquan foi, a seu tempo, o pico máximo de séculos de revoltas camponesas, marcando o primeiro golpe contra o sistema imperial e a colonização estrangeira. Ainda mais significativamente, a Revolução Republicana de 1911 se auto-identificava como herdeira da Rebelião Taiping.

Observando a invasão posterior de missionários protestantes estrangeiros, que, como as guerras do ópio, funcionou como uma ferramenta de colonização ocidental durante o “século de humilhação” da China, Boer nota como a Levante dos Boxers (com seu ataque frontal e justificado aos ocupantes coloniais) às vezes atacava mais do que seu alvo central. Por vezes suspeitos de colaborar com as forças coloniais, os cristãos chineses muitas vezes também foram alvejados pela rebelião. O efeito disso foi levar muitos cristãos revolucionários a esclarecerem suas posições, declarando apoio à luta.

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A partir da obra de Kautsky “Fundamentos do Cristianismo”, o teólogo Zhu Weizi escreveu “Jesus, o Proletário” na década de 1950, enquanto Wu Yaozong ofereceu uma análise única do Evangelho através das lentes do materialismo histórico. Enquanto isso, Wu Leichuan atacou a hegemonia da “harmonia social” confucionista, desenterrando um universalismo compartilhado entre Moisés e Cristo – figuras que ele argumentou serem revolucionários lutando para transcender a ordem social de seus tempos. Um dos pontos comuns desses teólogos era a revelação de Jesus como um revolucionário proletário, uma figura que ofereceu um risco direto a Roma em seus ataques a centros de poder políticos, econômicos e religiosos de Jerusalém. Outro tema fundamental era a proclamação de uma nova ordem social por Jesus: o Reino de Deus. Esses pensadores estabeleceram comparações diretas entre Jesus e Marx, argumentando que o cristianismo e o materialismo tinham muito em comum. Reconhecendo o universalismo do cristianismo, eles o viam como um sistema com imenso potencial revolucionário. Ainda mais importante era o fato desses teólogos marxistas terem trabalhado com sucesso para realizar a sinificação tanto de Jesus quanto de Marx, pegando o que eles achavam útil no pensamento ocidental e adotando-o como seu, dentro da cultura chinesa, em apoio à revolução.

Boer conclui sua pesquisa sobre o cristianismo comunista com uma exposição sobre o chondoísmo na República Popular Democrática da Coreia (Coreia do Norte). Uma forma de religião revolucionária nativa da Coreia, paralela em alguns aspectos ao cristianismo, o chondoísmo é uma fé que se tornou um recurso espiritual imenso na construção do comunismo coreano. Seus pilares incluem a crença na imanência divina de todos, patriotismo e anticolonialismo, bem como visões sobre a construção do Reino de Deus como um projeto político emancipatório a ser construído na terra. Ele se tornou popular entre o campesinato, particularmente na luta da Coreia contra o Japão, oferecendo aos oprimidos um senso de valor próprio negado a eles pelo confucionismo e pela ocupação japonesa. Chamando-a de “Teologia Juche”, Boer conclui que a religião coreana prova que o cristianismo comunista pode realmente ir além das margens, desempenhando um papel construtivo onde o socialismo conquista o poder, como é o caso da religião na RPDC. No chondoísmo e no cristianismo coreano, ele identifica sistemas religiosos maduros que se centram na intervenção subjetiva na história, ousando afirmar que, coletivamente, a humanidade pode se tornar o próprio destino.

Apesar do livro de Boer não tratar da rica tradição da Teologia da Libertação, ele oferece uma ampla visão geral da história do cristianismo e do socialismo, particularmente no oriente. O livro é uma excelente fonte para qualquer um que se interesse pela interseção entre teologia, história e marxismo, com uma leitura bastante acessível. Mais uma vez, com esse livro Boer se prova um dos grandes pensadores modernos capazes de reunir a luz da tradição marxista com a história da práxis cristã.