A mão invisível: o mito de que “o capitalismo se organiza magicamente” prevalece em nossas mentes

O mito da "mão invisível", além de criar uma oposição à intervenção estatal, serve para expiar as culpas dos poucos que se beneficiam acumulando riquezas. Por Misión Verdad – Tradução de Pedro Marin para a Revista Opera

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(Foto: Smetek / Science Photo Library)

Um dos conceitos econômicos mais famosos que há é o da “mão invisível” do mercado, que pretende explicar porquê a ganância e o egoísmo de cada rico conduz à prosperidade da sociedade como um todo.

O princípio básico da metáfora é o de que o capitalismo se organiza de uma forma mágica: as dinâmicas econômicas baseadas na busca de riqueza e poder por parte dos indivíduos alcançarão espontaneamente um equilíbrio, e embora eles tenham de atuar de maneira egoísta para obter riqueza, outra magia incompreensível fará com que a sociedade avance. Sob essa crença, tudo o que não se ajusta ao pensamento de mercado é ruim, porque dificulta o trabalho da mão invisível em “organizar” as coisas.

Adam Smith, conhecido como o autor do conceito, utilizou a frase três vezes. A primeira vez que a usou foi em um tratado de astronomia, para descrever a compreensão que as pessoas tinham sobre seu entorno na Antiguidade. Ali ele menciona a “mão invisível” de Júpiter, deus mitológico ao qual se atribuiu o poder de desencadear vários eventos da natureza.

Na Teoria dos sentimentos morais, Smith volta a usar a frase, desta vez com um enfoque econômico, indicando que “alguma mão invisível” obriga os ricos a servir “o interesse público e a multiplicação da raça humana”. O faz uma terceira vez no A riqueza das nações, em uma seção sobre o comércio, para explicar como os comerciantes e fabricantes, embora atuando por motivos egoístas, são guiados pela “mão invisível” do mercado, que os faz servir de fato aos interesses da sociedade muito mais do que se tentassem fazê-lo de forma consciente.

A ideia de que o mercado é inerentemente estável não dá muito espaço para que estudos econômicos incluam fatores psicológicos das pessoas que interagem em tal dinâmica. Se este espaço de investigação é reduzido para explicar o comportamento do mercado, o é ainda mais o campo da psicanálise, que investiga o inconsciente para descobrir impulsos e desejos reprimidos.

A pesquisadora Lynn Parramore escreve sobre o tema em um ensaio publicado recentemente. Ela parte das evidentes consequências destrutivas que os sistemas econômicos deixaram sobre os povos para fazer uma pergunta: “Poderia ser o momento de reconsiderar se a psicanálise tem algo de útil para dizer sobre a ciência triste?”.

Em seu trabalho, Parramore cita o livro Por amor à imaginação: aplicações interdisciplinares da psicanálise junguiana (2014), do psicanalista Michael Vannoy Adams, que por sua vez se baseia nos estudos do psiquiatra suíço Carl Jung sobre o mundo das imagens, seus significados e influências. O livro ajuda a tornar consciente a imagem da mão invisível do mercado, e, desse modo, “a desvendar o que está na sombra do capitalismo contemporâneo”, diz a pesquisadora.

Com 250 anos no inconsciente coletivo, não há “outra imagem [que] impregne tanto, domine tanto, o mundo moderno” como a mão invisível do mercado, diz Vannoy Adams. Autores que precederam Smith, desde Homero até Voltaire, utilizavam a imagem da mão invisível para representar “forças fantasmagóricas ou divinas que intervêm nos assuntos humanos”, indica Lynn Parramore. Durante a época de Smith, os romances góticos narravam mãos invisíveis que apareciam “para bater nas portas e avançar a trama humana”. Mais adiante, a autora faz referência a um caso particular: “Adams destaca uma versão especialmente evocativa da mão citada em ‘As paixões e os interesses de AO Hirschman’. A ilustração reproduzida de uma mão celestial e imaterial que aperta um coração sob o lema ‘Affectus Comprime’ ou, na tradução de Hirschman, ‘Reprima as paixões!’. Se há uma imagem psicanalítica, é esta.”

O mito diz que a mão invisível consegue fazer milagrosamente com que a ganância acabe beneficiando a todos, mas na realidade o que aquela força imperceptível faz é expiar as culpas dos poucos que se beneficiam acumulando riquezas. Seguindo o enfoque de Jung, Vannoy Adams explica que a culpa, quando não é reconhecida, tende a projetar-se sobre os demais como uma sombra. “Nos sistemas de livre mercado, se culpa os pobres […] por não atuarem de forma a aumentar sua riqueza”. Nós conhecemos bem essa conduta na famosa e muito caricaturizada frase “o pobre é pobre porque quer”.

Outro aspecto que a mão invisível abarca é o religioso. O século 18, o do Iluminismo, foi o ponto de partida para que a moda de glorificar o Senhor perdesse adeptos nas sociedades europeias. Portanto, se pode dizer que o mercado veio a ganhar força como candidato a substituto de Deus na execução de milagres. O deus mercado, diz Vannoy Adams, é um deus absconditus, um deus que está oculto e é incompreensível; é um deus ex machina que, como na antiga obra de teatro grego, aparece do nada para intervir nas decisões egoístas dos que buscam riquezas, equilibrando o resultado final.

O âmbito religioso da mão invisível privilegia o abstrato sobre o concreto. Parramore destaca que esta função “[…] parece impregnar a economia, onde os praticantes muitas vezes se apaixonam por modelos abstratos que os cegam para o que pode ser facilmente visto na realidade, particularmente a pobreza e o sofrimento dos seres vivos.”

Esta imagem do deus mercado que, como Deus, opera independentemente do plano humano, justifica a oposição à intervenção governamental. Se há algum problema no sistema, a mão invisível o resolverá. O que não é resolvido é relegado ou esquecido no que Vannoy Adams chama de “inconsciente econômico”.

Então ocorre algo, como uma pandemia, que põe à prova a crença de que a intervenção do Estado não é necessária. Os governos de todo o mundo gastaram bilhões de dólares intervindo na economia, em alguns casos para ajudar os desempregados e proteger a população em geral, em outros para resgatar bancos e negócios.

Cenários como o da pandemia, a possibilidade de uma nova recessão econômica e outras crises são comuns hoje no mundo globalizado e neoliberal, repercutem entre as grandes maiorias, em todos os seres vivos e até no nosso entorno, enquanto a força que deveria equilibrar tais crises não aparece. Parramore cita uma advertência feita por Jung em 1957, frente a “incapacidade de reconhecer a sombra e compreender as operações do inconsciente”: “Alguém pode considerar o estômago ou o coração como coisas sem importância e dignas de desprezo, mas isso não impede que comer em excesso ou esforçar-se demais tenha consequências que afetam todo homem. No entanto, acreditamos que os erros psíquicos e suas consequências podem ser eliminados com meras palavras, porque ‘psíquico’ significa menos que o ar para a maioria das pessoas. De qualquer forma, ninguém pode negar que sem a psique não haveria mundo em absoluto e menos ainda um mundo humano. Praticamente tudo depende da alma humana e suas funções. Deveria ser algo digno de toda a atenção que possamos dar-lhe, especialmente hoje, quando todos admitem que a prosperidade ou a desgraça do futuro não serão decididas por ataques de animais selvagens ou catástrofes naturais ou pelo perigo de epidemias globais, mas simplesmente por mudanças psíquicas no homem.”

O capitalismo está falhando conosco e com o planeta; no entanto, atuar em benefício próprio segue dominando nossa conduta. A fantasia da mão invisível que supostamente corrige as assimetrias do sistema, arraigada na mente humana, blinda as minorias poderosas, as salva de serem expostas como as responsáveis dos padecimentos globais, e no resto do mundo é um selo que acumula toda a fé de que um dia, através dos mecanismos da concorrência, gozaremos dos mesmos benefícios de que gozam essas minorias.

Se quisermos abandonar a ilusão e formular uma teoria que não se centre nos desejos individualistas, e sim no bem-estar dos seres vivos, teremos que olhar para o mais íntimo e profundo do nosso ser e investigar tudo o que ali foi construído para que fosse possível instaurar os comportamentos não naturais da ganância e do egoísmo.