A Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), aliança militar que congrega 28 estados da Europa, ao lado dos Estados Unidos e do Canadá, realizou recentemente sua Cúpula em Madri, na qual definiu a Rússia e a China como suas inimigas, ao passo que decretou o fim da etapa da globalização neoliberal. A militarização da produção, distribuição, comércio e comunicação expressam a consolidação de dois blocos geopolíticos e uma subsequente reconfiguração das relações internacionais.

O documento da Cúpula, que terminou na última quinta-feira (30), expressa a Nova Concepção Estratégica de Madri, baseada em uma cobertura planetária. Entre seus 22 pontos, o documento expõe a necessidade de enfrentar as “ameaças cibernéticas, espaciais, híbridas e assimétricas, e o uso malicioso de tecnologias emergentes e disruptivas”. O documento também afirma a necessidade de combater as práticas comerciais de seus adversários e/ou inimigos, e define novas áreas de incumbência, como as questões energética e de migrações – incorporadas no ponto 6 do documento – sob a dimensão militar.

“Abordaremos [as ameaças e desafios] de acordo com nosso enfoque de 360 graus, nos domínios terrestre, aéreo, marítimo, cibernético e espacial”, diz a declaração assinada pelos chefes de Estado. A declaração apela ainda a uma maior “cooperação civil-militar”, ampliando “a associação com a indústria” e reunindo “governos, o setor privado e a academia para reforçar nossa vantagem estratégica”.

Todas as esferas da vida passam a estar militarizadas em “operações de alta intensidade e multidomínio”. A referência aos processos migratórios, conceitualizados como uma problemática bélica, permite explicar os trágicos acontecimentos em San Antonio, no Texas – onde 46 pessoas morreram asfixiadas dentro do baú de um caminhão – e o massacre de Melilla, onde foram assassinados 37 africanos que buscavam escapar da fome e da guerra.

A Cúpula de Madri estende as concepções criadas em 2010 no que se refere às “ameaças à segurança não relacionadas com conflitos armados” bem como as relacionadas com a “segurança energética, as cadeias mundiais de distribuição comercial, os riscos sanitários ou a mudança climática”. Nesta concepção, qualquer uma dessas dimensões deve ser monitorada do ponto de vista militar e deve demandar e incluir possíveis sanções e/ou justificativas para a interferência da OTAN.

Um passo mais próximo da guerra híbrida, que consiste na gestão de diferentes modalidades de conflito, operações integradas e sobrepostas: convencionais, irregulares, espaciais e virtuais, atravessadas por manipulações diplomáticas, midiáticas e judiciais, estruturadas a partir de operações de caráter cognitivo sobre as populações.

Em Madrid, iniciou-se também o procedimento estatutário para a entrada de dois outros membros, Finlândia e Suécia, e foi assinada a instalação de uma base militar na Polônia, onde ficará o quartel-general permanente do quinto corpo de exército dos Estados Unidos. Para se converter ao multidomínio, a OTAN se propõe – além de avançar para o leste, para cercar mais Moscou e Pequim – expandir-se para o Atlântico Sul, instalando bases na África, América Latina e Antártida. Estipulam ainda que, em uma segunda fase, se buscará a expansão ao Ártico.

O objetivo estratégico da OTAN durante a Guerra Fria se resumia na contenção, ou seja, em impedir a expansão da União Soviética e do restante dos países localizados atrás do que foi chamado de “cortina de ferro”. Ao contrário, o objetivo atual da Aliança Atlântica, comunicado pelo seu secretário-geral, o norueguês Jens Stoltenberg, consiste em buscar desarticular a soberania dos países considerados inimigos (a Federação Russa) e/ou adversários (China, Venezuela, Irã, entre outros).

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Para alcançar esse propósito é necessário moldar a ordem mundial de acordo com a visão e os interesses dos três eixos corporativos de dominação, definidos originalmente por Washington: as transnacionais, os centros financeiros e o complexo industrial-militar, compostos por diretores intercambiáveis, ​​que entram e saem do Estado para as corporações por portas giratórias. Esses três grupos, articulados, constituem-se no centro da proposta atlanticista de hegemonia global, que consideram atualmente desafiada pela entente sino-russa.

A militarização da economia, conceituada pelo documento da OTAN, gerou um aumento no preço dos fertilizantes e energia, causando inflação e escassez de alimentos no sul global. “Acho que aqueles que propõem essas decisões têm a ilusão de que poderão intimidar a Rússia, contê-la de alguma forma. Eles não terão sucesso”, disse o vice-chanceler russo Serguei Riabkov na última quarta-feira (29).

A destruição de países como Iraque, Síria, Iêmen, Somália, Sudão e Líbia é a expressão dessa direção, no sentido da desintegração do que não pode ser moldado: será uma questão de dar continuidade ao desmembramento de países párias para transformá-los em estados falidos e assim alcançar o controle de seus recursos e impossibilitar sua aproximação com a Rússia ou a China. A nova etapa da OTAN amplia seus poderes, designando como objetivo as redes de cooperação interestatal: procurará dificultar os vínculos e as lógicas de cooperação implementadas por países considerados inimigos ou adversários.

Como parte dessa tarefa, busca-se o desmembramento da Rota da Seda, a fim de reduzir a influência de Pequim. Os primeiros testes dessa orientação estratégica, no entanto, não foram eficazes: as sanções unilaterais (econômicas, comerciais e financeiras) destinadas a enfraquecer Moscou se tornarão o paradigma dessa nova concepção atlantista, destinadas a orientar, sob um perfil militar, as dimensões econômicas, sociais e culturais das relações internacionais. “A República Popular da China” – disse o secretário-geral da OTAN, Jens Stoltenberg, na última quinta-feira (30) –, “desafia nossos interesses, segurança e valores, e busca minar a ordem internacional baseada em regras […] temos de ter em conta as consequências para a nossa segurança quando vemos que a China […] tenta controlar infraestruturas estratégicas, por exemplo o 5G, a rede de telefonia de última geração”.

Hegemonia das armas

A resposta de Pequim ao documento de Madri foi dada em 30 de junho pelo porta-voz da delegação chinesa na União Europeia: “A OTAN continua com sua tática de criar inimigos e fomentar o confronto entre blocos. Este novo conceito estratégico ataca e difama a China de forma maliciosa. Daremos respostas firmes e decididas a todo ato que mine nossos interesses.”

A resposta militar planteada pela OTAN contra a China não parece resultar de ameaças à segurança atlântica. É o resultado de seu êxito na produtividade industrial e nos serviços, na edificação da cooperação internacional sem ingerências e na sua capacidade de ampliar os seus mercados e seu crescente poderio econômico, tecnológico e científico. Como escreveu a perspicaz colunista do Washington Post, Katrina Vanden Heuvel, “as novas armas e bases do Pentágono não substituirão nossa incapacidade [dos EUA] de investir em pesquisa e desenvolvimento de vanguarda, em uma infraestrutura moderna e eficiente e em uma política comercial que sirva aos estadunidenses ao invés das corporações multinacionais”.

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A OTAN está integrada por 30 países e dez sócios. Além disso, os Estados Unidos mantêm mais de 700 bases localizadas em quase a metade dos países do mundo. Nas últimas três décadas, o Pentágono levou adiante operações militares em 85 países, com o aval e a assistência do Comando Aliado para a Transformação (SACT) – dependente da Aliança Atlântica –, dedicado à formação e à produção de pensamento estratégico.

Atualmente, o SACT possui centros de pesquisa vinculados a centros acadêmicos, think tanks e agências de inteligência nos cinco continentes. Existem atualmente 28 centros operacionais, incluindo o centro de guerra cibernética na Estônia e o centro de comunicações estratégicas na Letônia, ambos voltados para a produção e manipulação de conteúdo e algoritmos.

Para garantir o cumprimento das novas diretrizes atlanticistas, a maioria dos membros terá que aumentar seu orçamento, como Donald Trump exigiu anos atrás. Atualmente, apenas um terço de seus 30 membros cumpre o compromisso de contribuir com 2% de seu produto interno bruto (PIB) para a Defesa. Por sua vez, o Pentágono tem um orçamento maior do que nos tempos da Guerra Fria. O montante destinado por Washington ao complexo industrial-militar equivale à soma dos orçamentos militares combinados dos nove países do mundo com os maiores gastos.

A aprovação dos volumosos orçamentos militares pelo Capitólio conta com a promoção de 700 lobistas, encarregados de persuadir os membros das duas câmaras do Congresso. Muitos desses agentes – encarregados de financiar campanhas eleitorais e subornar parlamentares (legalmente) – são ex-funcionários das Forças Armadas. Dado que a prática de convencimento com contribuições é legal em Washington, a Government Accountability Agency (órgão similar ao Tribunal de Contas da União) realizou uma pesquisa na qual identificou 1.700 generais, almirantes e funcionários ligados ao Pentágono que, após abandonarem seus cargos oficiais, passaram a trabalhar nas 14 principais empresas contratistas de produção de armas.

Estas empresas, junto ao Departamento de Defesa dos EUA, aportaram em conjunto, nos últimos anos, mais de um bilhão de dólares aos 50 centros acadêmicos mais prestigiados dos Estados Unidos. Por sua vez, a Iniciativa Cinturão e Rota promovida por Pequim – orientada à cooperação internacional no desenvolvimento de infraestrutura – tem um valor equivalente a 10% dos gastos do Pentágono.

Ocultar derrotas

Apesar de tamanho investimento militar e das sanções unilaterais usadas contra a Rússia, os mandatários reunidos na Espanha buscaram ocultar o fracasso retumbante das medidas tomadas: desde o início da intervenção militar na Ucrânia, as exportações de petróleo e gás de Moscou aumentaram, o aumento dos preços internacionais de fertilizantes e energia permitiu aumentar os ingressos da Rússia, a substituição de importações aumentou (dos produtos daquelas transnacionais que deixaram o país) e o rublo se valorizou.

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Talvez tenha sido o que o presidente francês Emmanuel Macron recentemente alertou – durante uma visita a Kiev em 16 de junho –, dizendo que a Europa nunca poderá ser separada da Rússia: “Nós, europeus, compartilhamos um continente, e a geografia é teimosa: no final das contas, a Rússia ainda está lá.” O que ele não disse, aliás, é que Moscou não pode ser derrotada militarmente: é a maior potência mundial no que se refere à guerra nuclear.

O quadro apresentado pela OTAN é um alerta indubitável para a América Latina e, especificamente, para os BRICS. Na terça-feira (28), o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, disse em entrevista coletiva em Ashgabat, capital do Turcomenistão, que “tanto a Argentina quanto o Irã são candidatos dignos e respeitáveis [aos BRICS] ​​[…] O mais importante é que o processo preliminar começou.” Por sua vez, Maria Zakharova, porta-voz do mesmo ministério, anunciou que ambos os países apresentaram oficialmente seus pedidos de admissão ao bloco.

No mesmo período, Boris Johnson, primeiro-ministro britânico, recusou-se a entrar em negociações sobre as Ilhas Malvinas e acusou Vladimir Putin de ser machista, afirmando que a intervenção militar na Ucrânia correspondia a uma “masculinidade tóxica”. O chefe da Federação Russa recordou que foi Margaret Thatcher quem invadiu as Ilhas no Atlântico Sul, a milhares de quilômetros de distância de Londres.

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Ano que vem será o bicentenário da Doutrina Monroe, verdadeiro antecedente das fórmulas empregadas hoje pela OTAN. Poucos anos depois do anúncio da Doutrina, no dia 5 de agosto de 1829, Simón Bolívar escreveu uma carta ao coronel Patricio Campbell com uma reflexão profética: “Os Estados Unidos parecem destinados pela Providência a empestear a América de misérias, em nome da liberdade”. O que o caraquenho não pôde perceber então é que a América não seria a única vítima de tais pestes.