Expressas: democracia de exceção

Governador Cláudio Castro, do Rio de Janeiro, deveria se atentar ao perigo de misturar o sangue alheio com processo democrático. Por Pedro Marin | Revista Opera

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O governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, durante almoço com a Associação de Supermercados do Rio de Janeiro. (Foto: Isac Nóbrega/PR)

“Não vamos tolerar ataques como esse contra quem defende a população do nosso estado!”, declarou Cláudio Castro (PL), governador e pré-candidato bolsonarista à reeleição no Estado do Rio de Janeiro. Se referia à morte de seis pessoas na Favela de Manguinhos por policiais civis, na última terça-feira (12), durante uma operação da Polícia Civil na favela. Segundo a corporação, um grupo de policiais do Esquadrão Antibombas se dirigia à Cidade da Polícia quando foi alvejado por criminosos.

Liderança da Federação das Associações de Favelas do Rio de Janeiro, Derê Gomes deu testemunho de que o governador tem realizado “chacinas eleitoreiras” no estado: “Na falta de propostas concretas para os problemas do povo como desemprego, fome, educação e saúde, o governador autoriza chacinas quase que semanais para tentar se reeleger com o voto da extrema-direita.”

Sob a estranha normalidade democrática que vivemos no Brasil desde a “transição transada” parir uma redemocratização sob tutela militar – e com anistia ampla, geral e irrestrita, até para golpistas e torturadores –, ajudar a matar nas favelas é normalmente uma das atribuições dos governadores no País. Agora tornou-se ferramenta para obter votos. Misturar tão diretamente o sangue alheio com o processo democrático é, no entanto, coisa perigosa, à qual homens como o governador deveriam atentar. Desse tipo de depravação podem nascer outras inflexões: que, por exemplo, os alvos preferenciais destas campanhas eleitorais passem a acreditar que a sua única garantia democrática seja atirar de volta.

*“Expressas” é a nova coluna da Revista Opera voltada a comentários curtos e rápidos sobre algumas notícias do dia. Este é o primeiro deles.